Representantes de ligas, associações, blocos de rua e coletivos carnavalescos de Belo Horizonte divulgaram uma nota pública em que manifestam repúdio às escolhas da gestão pública do Carnaval da capital mineira. O documento critica a priorização de grandes produtores e atrações de fora de Minas Gerais em detrimento do fortalecimento contínuo do fazer cultural local e da cadeia produtiva que sustenta o Carnaval de rua da cidade.
Segundo o texto, enquanto os cortejos de rua — diversos e distribuídos por todas as regionais — seguem com apoio escasso e sem políticas permanentes de fomento, a programação oficial tem anunciado artistas de projeção nacional, muitos deles sem ligação orgânica com a cena carnavalesca belo-horizontina.
Carnaval construído pela cena local
Na avaliação das entidades, o Carnaval de Belo Horizonte, hoje consolidado como um dos principais destinos turísticos do país, é resultado direto do trabalho de artistas, artesãos, produtores, técnicos, ambulantes e foliões locais. “Essa festa plural, democrática e segura é fruto de um ecossistema cultural que cria, ensaia e se apresenta durante todo o ano, mesmo sem apoio estruturado”, destaca a nota.
Os representantes ressaltam que, apesar da ausência de políticas públicas permanentes, o Carnaval gera renda e movimenta amplamente a economia criativa da cidade, sustentando milhares de trabalhadores da cultura.
Críticas ao modelo de grandes shows
O documento aponta que o atual modelo de gestão pública tem privilegiado a lógica de grandes shows e megaeventos, o que, segundo os blocos, esvazia territórios, precariza trabalhadores da cultura e descaracteriza o espírito comunitário da folia. As entidades alertam ainda para os riscos desse formato, tanto do ponto de vista cultural quanto da segurança pública.
Como exemplo, a nota cita o show do DJ Alok no Carnaval de 2025, promovido pelo poder público como uma política de sucesso. De acordo com o texto, o evento resultou em episódios graves de violência, incluindo pessoas feridas, pânico coletivo causado por superlotação e esmagamento de foliões em função do trajeto escolhido.
Reivindicações dos blocos e coletivos
Diante desse cenário, os blocos e associações afirmam repudiar a priorização de megaeventos financiados com recursos públicos em detrimento do fortalecimento estrutural dos realizadores locais. Entre as principais reivindicações estão:
- Transparência nos critérios de aplicação dos recursos públicos destinados ao Carnaval;
- Participação social efetiva nas decisões sobre a programação e o modelo da festa;
- Valorização e investimento contínuo em blocos de rua, escolas de samba e blocos caricatos;
- Um Carnaval descentralizado, popular e alinhado à identidade cultural da cidade.
A nota se encerra com a defesa de um “Carnaval de Belo Horizonte feito por quem faz”, reafirmando o protagonismo dos agentes culturais locais.
Entidades signatárias da nota
Assinam o documento as seguintes organizações:
- Liga Belorizontina
- Santa Tereza Independente Liga (Si Liga)
- Liga dos Blocos de Rua e de Luta de Belo Horizonte (BRUTA)
- Associação do Blocos de Rua de BH (ABRA)
- Associação dos Blocos Afro de Minas Gerais (Abafro)




